
Então o cidadão brasileiro trabalhador e pagador de impostos chega na sua casa, depois de um dia de árdua labuta, querendo relaxar. Toma um banho bem quente, faz uma boquinha, coloca as tralhas pro outro dia em ordem e… vai ler seu gibizinho, a leitura nossa de cada dia… Eis que ele abre a revista e a história é a seguinte: um personagem tem vários problemas, mas consegue lidar com eles, ao mesmo tempo em que cuida da sua vida paralela – leia-se: a identidade de super herói, aí enfrenta um vilão, mas não o mata (ou o mata, mas ele sempre retorna) e no final briga com a namorada, que não o compreende. Sabe qual a única parte que se pode identificar com um personagem superficial desses? A parte que ele briga com a namorada, pq 90% das vezes nossos cônjuges não nos entendem (vale tanto pra homem quanto pra mulher essa parte, não sou TÃO machista assim). Ahhh pára, amigo e colega leitor de HQs, vai dizer que não está bem assim as coisas? Cadê a profundidade dos personagens? Não é possível que a galera ainda se prenda nas mesmas raias criadas/inventadas por Stan Lee nos anos 1960! Claro, funcionou muito bem na época, mas não está mais caindo na graça o personagem que era NERD, mas em sua versão heróica a menininha que ele é apaixonado é apaixonada por ele também. Nem o pai-de-família que não consegue ficar com o filho porque sua identidade dupla não permite. Pra entender melhor o que estou querendo dizer, basta ler “Mulher Maravilha do Stan Lee”. Já leram? Ilustra melhor do que uma aula o que eu quero dizer.
Por outro lado, existe WATCHMEN. Claro, chutei o balde, fui direto no top dos tops, a melhor história em quadrinhos sobre Super Herois que existe. E é fato. E contra fatos não há argumentos, apenas opiniões pessoais, que eu muito respeito, mas, please, pelamordeDeus, leiam Watchmen. É a quarta vez que estou relendo, e cada vez encontro coisas novas, elementos que não havia vislumbrado anteriormente. Caso você já tenha lido, faça um favor a si mesmo e RELEIA Watchmen. Vocês vão entender do que eu estou falando: personagens profundos e com tantas falhas que NEM VOCÊ iria querer andar perto deles. A Silk Spectre (Espectral) é maravilhosamente humana. O Rorschach é completamente louco, mas mesmo assim, o mais são deles. O Manhattan é um merda (com o perdão do baixo calão, mas é mesmo). O Coruja é inseguro, carente, bondoso, nossa, onde já se viu um herói broxar? Se algum dia eu escrever uma história, meu personagem também vai broxar, é o cúmulo da insegurança.
Outro maravilhoso exemplo é o Star Brand (Estigma, do Novo Universo). Esse cara pode fazer tudo – ao melhor estilo Manhattan – e mesmo assim não consegue sair de um relacionamento fadado a dar errado. O personagem era a alma do título. Tanto que quando resolveram focar o PODER ao invés do PERSONAGEM a revista foi cancelada em sete edições.

Enfim, o que eu quero dizer é que quanto mais passa o tempo, mais falhos nos mostramos, mais falha notamos que é a humanidade. Por que razão nossos heróis não deveram ser também? Eles já são tudo que não somos: possuem força sobre humana, invulneráveis, poderosos, mas ao mesmo tempo, seu caráter é igual ao nosso. Talvez até pior.
E tenho dito.



